quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Tristeza e a Solidão


A tristeza entrou em minha residência, encostou o pé entre o vão da porta e puxou uma cadeira sentando ao meu lado. Eu não compreendia, mas sabia que não estava mais sozinha, não precisava mais esperar a vinda do novo alguém. O mundo pela sacada do meu apartamento estava inerte e ela sentada olhando para mim esperando que eu questionasse a sua vinda, mas eu ainda estava em choque. Depois de alguns meses da saída da felicidade, eis que ela veio me afrontar, querendo transformar minha conformidade em lagrimas que nunca eu quis chorar.

Curiosamente eu aceito sua vinda, convido para uma conversa aberta, com uma taça de vinho e um maço de cigarros deixado pelo meu passado dentro da escrivaninha. Ela me fita como se algo em mim tivesse mudado desde a última vez, pega o isqueiro, acende meu cigarro e o dela, brindamos a idas e as vindas e continuamos a nos olhar. Eu sinto um enorme vazio que talvez ela tenha vindo preencher me transportar para um mundo de sensações que eu a muito quis esquecer. Desnecessário era saber que a garrafa de vinho estava quase no fim, filtros e cinzas transbordando do cinzeiro, melancolias de um passado bom (que há poucas horas atrás era passado, agora já nem sei), saudades das minhas viagens a dois,dos filmes e livros compartilhados. Agora sim chegou a vez da nostalgia, veio em fim me fazer companhia e participar de um diálogo a três, eu a tristeza e a saudades, noite fria, gélida, sem alegrias a esperar nas janelas em cidades vazias.


Logo me sinto inundada por lembranças de mim, de ti, do nós. Momentos que mereceriam mais importância da nossa parte, mais carinho e cuidado, pois foram vividos e sonhados. Hoje em meio a esta conversa nostálgica e triste eu consigo enxergar que eu sobrevivi e resisti a sua ida, entendi que eu não poderia lamentar, nem mesmo se quer exigir mais de ti do que já fora colocado no sentimento há tempos retirado do seu e meu presente. Vidas paralelas foram construídas em cima da falta de companhias, na falta de lagrimas não sofridas, na falta de amor, amor a dois, ninguém ama sozinho ou continua nutrindo um amor que só um sente.

Então, como se eu saísse de mim, me vi recostada na minha sacada, aquela mesma sacada de antes e o depois de ti, observando não o mundo inerte lá fora, mas o mundo que eu paralisei e abstive, por aceitar e pedir que a tristeza e a saudade se alojassem em minhas dependências, tanto na casa como em meu ser. Esse momento de reflexão se fez ardente, fez minha pior parte querer se expor, a minha raiva, minha dor estava no seu ápice, eu não reclamava mais, não queria mais a febre e agonia da perda.


Renasci entre os cacos! A frustração que insistia em marcar minha fisionomia tinha cessado, estagnado. Em meu peito o coração que sofria, passou a bater exigindo vida, exigindo ser alguém pulsante.

Bom, tristeza e saudade, naturalmente já sabem o desfeche dessa história, não teremos mais encontros marcados, aqueles diários, não compartilharemos mais das taças de vinhos, nossos Merlos e Cabernet, não dividiremos mais a mesma casa, nem a mesma cama, dividir meu maço de cigarro não acontecerá mais, aliás parei de fumar. E claro, não terei mais espaço na sacada para vocês, não poderão ler meus livros e nem escutar os meus CDs. Na realidade não esperem mais serem convidadas a frequentar minha alma, pois estou fazendo amor com outros sentimentos, e não entendam como traição, mas a felicidade me excita mais.
Hoje, eu resolvi sair por ai de encontro com meu outro lado, o tempo de angustia não me cativa mais. Terei noites em claro, dias exaustos,  semanas turbulentas e meses e anos completos, pois pela primeira vez depois de ti, eu começarei a viver. Obrigada pela experiência, mas preciso aprender mais e eu sei que em algum lugar tu já se despediu de mim e dos momentos, já deve estar vivendo a mais tempo do que eu, fico feliz com tudo que aconteceu e levo comigo a certeza de que valeu a pena. Agora é minha vez de ir renovar a minha alma.



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