Tantos
encontros e desencontros, tantos amigos indo, assim como eles, estranhos vindo.
Logo a distância causa a lágrima, logo a lágrima da vazão a tristeza, que breve
se tornará nostalgia. E tudo ficará meio sobreposto, verdades e mentiras, erros
e acertos se misturarão em uma espécie de drink, instável e naturalmente forte,
tentador, quase como uma dose de um destilado barato em garrafa de luxo,
saboroso somente pelo rótulo, como uma Absolute.
Nossos olhos
com o passar do tempo começam a se enganar, começam a deixar os lapsos de
memórias do passado tomarem conta das lacunas que não se fecharam em nosso
subconsciente, nos iludindo com imagens saudosas de momentos de glória, se
posso intitula-los como gloriosos mediante ao desfecho da minha história feliz.
Risos.
Mas sim,
ainda vejo por entre os corredores do meu prédio, imagens, velhas e sombrias
imagens, de um passado doce, ao caminhar entre esse labirinto de corredores me
deparo com o ar rarefeito, misturado com fumaça de um cigarro barato que julgo
ser aquele eight ou Mille, algo do tipo, que deveria ser nomeado como enfisema
pulmonar, garanto que venderia o mesmo ou mais do que já vende e sobrevive entre a
população classe baixa do meu bairro. Esse ar rarefeito é a palpitação do meu
coração, que descontrolado faz mensura a um tempo bom, nosso tempo bom. Essas
eternas galerias de saudades desse prédio surrado, apartamento apertado, cheio
de marcas do que outra hora fora um nós.
Vizinhos que
eu nunca vi a face, que paravam subitamente para escutar nossos diálogos mais
calorosos pelo hall enfrente a porta 23, do prédio verde claro, na esquina com
a Av. Angélica. Curiosamente, tenho que sorrir, pois sinto falta de companhia
em minha sala de estar, sinto falta do Nando Reis tocando de forma tão
voluntária um show completo, com as suas músicas classe A, para o nosso deleite
de fim de tarde, na maravilhosa presença da brisa inconstante e garoa da selva
de pedras. Uma taça de vinho tinto, claro suave, para fazer seu olhar fixar em
mim e no Nando, em uma súbita necessidade de compartilhar uma cama vazia com os
seus dois amores, deixando claro que seria mais uma brincadeira, só para variar
e não deixar cair em uma rotina, casal tipicamente morno.
Tão natural,
uma ducha fria, uma toalha meia cintura, fome, bebedeira, choro, saudades,
calma, ira, mentiras, um misto quente de sensações diárias da vida que tive anexada
a sobrevivência de hoje. Choro por horas ao debruçar-me sobre o para peito da
sacada, já é quase noite o meu quarto vazio, o home teacher não toca mais
nenhuma trilha sonora, meu mundo estraçalhado, o vinho temperatura ambiente,
corpo quente em febre, olhar perdido, vícios antigos se tornando amigos
diários. Lembranças vazias.
Abro meu
guarda roupas, busco algo que tenha sido por mim escolhido, por mim desejado,
mas tudo trás suas escolhas a tona, as listras que eu sempre achei ridículas
tomaram conta, juntamente com cores neutras, shorts, não encontro, acredito que
nem os tenha mais, e pior já faz anos. Quando mesmo contrariada coloco um
jeans, camiseta branca, chinelos havainas, cabelos desgarrados, um relógio que
não marca a hora, dinheiro trocado e o cartão no bolso da calça, olho o porta
retrato e aguardo a saída tardia da solidão.
De mãos dadas
saímos caminhando entre ruas das quais nunca estive, buscando pedaços meus que
nunca perdi. Nesses encontros e desencontros sei que te perdi e me encontrei. Ao
fim, decidi não volto mais para casa, não aquele lugar vazio que abriga mais
você do que eu, não aquele museu de fotos e recordações suas. Chega de viver a
tua sombra, viver uma espera em uma janela. Não aguento mais bebida barata,
trilha sonoras tristes, minha playlist nunca saiu da música 3 do álbum 19 da
Adele, onde choro recolhendo meus livros da Clarisce Lispector, Mario Quintana
e muitos outros que me acompanharam nessa transição triste e enganosa que criei
desde o adeus.
Pois é, desta
vez eu vou sair por ai, colocar minha vida passada em uma caixa e deixar em
algum canto, um lugar qualquer, virar as costas e ir recuperar o tempo que
perdi. Quero um novo lar, uma estante, uma lareira ao invés da sacada, ou as
duas para encantar um final de tarde. Não quero fotos, nem calças, nem brisa. Quero
poesias, versos, rimas, todos juntos para construir uma nova e feliz história,
de um recomeço de um alguém qualquer, que aprendeu com a solidão a ser feliz
com as escolhas que na vida fez.
Quer saber a
minha melhor escolha? Foi, com o perdão da palavra e até grosseria, me desfazer
de você.

Nenhum comentário:
Postar um comentário