terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Tantos Encontros e Desencontros


   Tantos encontros e desencontros, tantos amigos indo, assim como eles, estranhos vindo. Logo a distância causa a lágrima, logo a lágrima da vazão a tristeza, que breve se tornará nostalgia. E tudo ficará meio sobreposto, verdades e mentiras, erros e acertos se misturarão em uma espécie de drink, instável e naturalmente forte, tentador, quase como uma dose de um destilado barato em garrafa de luxo, saboroso somente pelo rótulo, como uma Absolute.
    Nossos olhos com o passar do tempo começam a se enganar, começam a deixar os lapsos de memórias do passado tomarem conta das lacunas que não se fecharam em nosso subconsciente, nos iludindo com imagens saudosas de momentos de glória, se posso intitula-los como gloriosos mediante ao desfecho da minha história feliz. Risos.

     Mas sim, ainda vejo por entre os corredores do meu prédio, imagens, velhas e sombrias imagens, de um passado doce, ao caminhar entre esse labirinto de corredores me deparo com o ar rarefeito, misturado com fumaça de um cigarro barato que julgo ser aquele eight ou Mille, algo do tipo, que deveria ser nomeado como enfisema pulmonar, garanto que venderia o mesmo ou mais do que já vende e sobrevive entre a população classe baixa do meu bairro. Esse ar rarefeito é a palpitação do meu coração, que descontrolado faz mensura a um tempo bom, nosso tempo bom.          Essas eternas galerias de saudades desse prédio surrado, apartamento apertado, cheio de marcas do que outra hora fora um nós.
    Vizinhos que eu nunca vi a face, que paravam subitamente para escutar nossos diálogos mais calorosos pelo hall enfrente a porta 23, do prédio verde claro, na esquina com a Av. Angélica. Curiosamente, tenho que sorrir, pois sinto falta de companhia em minha sala de estar, sinto falta do Nando Reis tocando de forma tão voluntária um show completo, com as suas músicas classe A, para o nosso deleite de fim de tarde, na maravilhosa presença da brisa inconstante e garoa da selva de pedras. Uma taça de vinho tinto, claro suave, para fazer seu olhar fixar em mim e no Nando, em uma súbita necessidade de compartilhar uma cama vazia com os seus dois amores, deixando claro que seria mais uma brincadeira, só para variar e não deixar cair em uma rotina, casal tipicamente morno.
     Tão natural, uma ducha fria, uma toalha meia cintura, fome, bebedeira, choro, saudades, calma, ira, mentiras, um misto quente de sensações diárias da vida que tive anexada a sobrevivência de hoje. Choro por horas ao debruçar-me sobre o para peito da sacada, já é quase noite o meu quarto vazio, o home teacher não toca mais nenhuma trilha sonora, meu mundo estraçalhado, o vinho temperatura ambiente, corpo quente em febre, olhar perdido, vícios antigos se tornando amigos diários. Lembranças vazias.
    Abro meu guarda roupas, busco algo que tenha sido por mim escolhido, por mim desejado, mas tudo trás suas escolhas a tona, as listras que eu sempre achei ridículas tomaram conta, juntamente com cores neutras, shorts, não encontro, acredito que nem os tenha mais, e pior já faz anos. Quando mesmo contrariada coloco um jeans, camiseta branca, chinelos havainas, cabelos desgarrados, um relógio que não marca a hora, dinheiro trocado e o cartão no bolso da calça, olho o porta retrato e aguardo a saída tardia da solidão.

     De mãos dadas saímos caminhando entre ruas das quais nunca estive, buscando pedaços meus que nunca perdi. Nesses encontros e desencontros sei que te perdi e me encontrei. Ao fim, decidi não volto mais para casa, não aquele lugar vazio que abriga mais você do que eu, não aquele museu de fotos e recordações suas. Chega de viver a tua sombra, viver uma espera em uma janela. Não aguento mais bebida barata, trilha sonoras tristes, minha playlist nunca saiu da música 3 do álbum 19 da Adele, onde choro recolhendo meus livros da Clarisce Lispector, Mario Quintana e muitos outros que me acompanharam nessa transição triste e enganosa que criei desde o adeus.

     Pois é, desta vez eu vou sair por ai, colocar minha vida passada em uma caixa e deixar em algum canto, um lugar qualquer, virar as costas e ir recuperar o tempo que perdi. Quero um novo lar, uma estante, uma lareira ao invés da sacada, ou as duas para encantar um final de tarde. Não quero fotos, nem calças, nem brisa. Quero poesias, versos, rimas, todos juntos para construir uma nova e feliz história, de um recomeço de um alguém qualquer, que aprendeu com a solidão a ser feliz com as escolhas que na vida fez.
     Quer saber a minha melhor escolha? Foi, com o perdão da palavra e até grosseria, me desfazer de você.


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